Porque me candidatei ás eleições autárquicas na União das Freguesias de Carcavelos Parede em Cascais

Porque me candidatei  as eleições autárquicas na União das Freguesias de Carcavelos Parede em Cascais

 

 

Possivelmente por exemplo e educação familiar, toda a minha vida se caracterizou por intensa atividade cívica, de intervenção social e política ao sabor das fases e condicionamentos circunstanciais. Como jovem, vivendo no período colonial em Lourenço Marques ,tive o privilégio de ter excelentes professores no Liceu, como Cardigos dos Reis, Cansado Gonçalves, Pires dos Santos, Francisco e Manuela Lacerda e Rodrigues Martins.

Tive o privilégio de conviver com Aurélio Quintanilha ,que alem de vizinho , dirigia o CICA, centro de Investigação onde minha mãe trabalhava como investigadora.

Tive oportunidade de contatar regularmente com amigos de meu pai,membros do Movimento Democratas de Moçambique, grupo politicamente heterogéneo, que ao longo dos anos tentou estabelecer pontes entre a Frelimo e o regime, nomeadamente Marcelo Caetano (Cunhado de Cansado Gonçalves) .Tinham como objetivo negociar um cessar-fogo e um processo faseado de independencia. Pertenciam ao movimento centenas de pessoas como, Almeida Santos, Adrião Rodrigues, Santa Rita, , Soares de Melo, Miguel Russel, Mário Barradas, Daniel de Sousa, Rui Baltasar, Rui  Lacerda, Eugénio Lisboa, Afonso Ribeiro; Rui Knofly e muitos outros.

Alem de ter praticado vários desportos, como natação,Ténis,Ténis de mesa, remo, equitação tinha atividade associativa em clubes de bairro . Fui fundador da organização juvenil de Rotary o Interact. Um dos nossos primeiros convidados, como palestrante, foi o jovem Marcelo Rebelo de Sousa hoje Presidente da República.

Fui estudar para a Universidade de Coimbra em 1966. Desde início envolvi-me em diversas atividades desportivas e culturais (Cineclube ; TEUC; Revista Vértice, Judo e ténis de mesa)

Também tinha muitos contatos com as república Quimbo dos Sobas (Angolanos) e Milionários (Moçambicanos). Nessa altura desenvolvia se um movimento liderado pelo Conselho das Repúblicas no sentido de se reabrir a Associação.

Foi em Coimbra que tive os primeiros contatos com PCP(José Barros Moura e outros)

No Porto desenvolvi intensa atividade nos movimentos estudantis,fui presidente da Associação de estudantes da FFUP . Fui eleito entre as pró-Associações de Estudantes ,Secretário-Geral do Secretariado Provisório da Reunião Inter-Escolas( SPRIE) .

Nessa qualidade dirigi dois Plenários de Estudantes no átrio atual da atual Reitoria. Num deles com Helena Medina e com cerco policial . Só foi levantado após negociações, que participei, com o então Ministro da Educação, Hermano Saraiva, nessa altura a inaugurar um Liceu em Gaia.

Tive intensa atividade política clandestina nesse período junto aos estudantes e Intelectuais do Porto. Tive reuniões e contatos clandestinos com Carlos Brito, Sérgio Vilarigues, Carlos Costa. Albano Nunes, José Bernardino; Janot e outros que não me recordo. Participei ativamente no Movimento Democrático do Porto.Em janeiro de 1974 fiz o COM na EPI em Mafra.

Tinha sido denunciado á Pide por dois camaradas clandestinos e amigos da vida legal ,nos primeiros meses de 1974. Propuseram passar á clandestinidade mas não aceitei.Tinha contatos com o MFA e decidi arriscar. No dia 25 de Abril estava no HMP na ESSM com alguns colegas da crise de Coimbra como era o caso do Rui Pato e Namorado. Passei a madrugada com cerca de uma dezena de oficiais Milicianos de diversos quartéis, numa casa em Benfica, de reserva e  em  contato com o MFA.

Pouco tempo depois de sair do HMP fui Transferido pra o Hospital da Força Aérea (NHEFA) no Lumiar. Fui eleito representante para então chamada Assembleia dos 200 do MFA.Fui requisitado para trabalhar com a Comissão Coordenadora do MFA ,ainda instalada no edifício da extinta Assembleia Nacional .Pouco depois na Cova da Moura onde vim a integrar a 5ª Divisão do EMGFA ,como secretário da redação do Boletim  do  MFA.O chefe da redação era o José Manuel Barroso , jornalista e capitão miliciano, mas colaboravam oficiais de diversas armas como Bouza  Serrano, Jorge Alves,Duran Clemente,Loureiro dos Santos, Carlos Gaspar ,António Ventura,Medeiros Ferreira (estes últimos como eu oficiais milicianos).

Vivi intensa atividade nessa altura com reuniões de esclarecimento em Fábricas (Farmacêuticas e Químicas), Hospitais ,na desocupação de prédios por construir. Estive um mês em Moçambique em missão especial ,sob as ordens do recém nomeado Alto-Comissário Vítor Crespo, após a tentativa de direita de golpe de estado em 7 de Setembro com ocupação do RCM . Com grupo de oficiais visitámos dezenas de unidades militares em todas os Comandos Militares em coordenação com a comissão coordenadora do MFA em Nampula (Aniceto Afonso) desde o Lago Niassa, Vila Cabral ; Zona de Tete , Zona de Nampula e Beira.

Após o 25 Novembro passei á disponibilidade antecipada, como aconteceu com centenas de oficiais milicianos.

Em 1976 por insistência de vários colegas do QP do exército concorri ao quadro Farmacêutico do Exército tendo ficado em primeiro lugar no concurso muito distanciado dos colegas .Preparei-me me durante um ano trabalhando voluntariamente como estagiário no Laboratório Militar e apoio de colegas da Faculdade , para onde tinha concorrido para Assistente e ficado em primeiro lugar.

Grande mudança de vida ,com grande investimento na formação profissional com o internato no Hospital Santa Maria, estágios e cursos em Londres e Barcelona.Com meu colega Francisco Genebra fomos encarregues de montar no HMP a primeira Farmácia Hospitalar no Exército.

Ao ingressar no QP do Exército a minha atividade política mudou radicalmente tendo passado a investir na minha carreira profissional.Fui com 37 anos presidente da Sociedade Europeia de Farmácia Clínica(Farmácia orientada para o doente) .Fui fundador e Diretor diretor do Serviço de Farmácia Hospitalar do HMP, diretor de Produção e Planeamento do LM e mais tarde Diretor. Fui requisitado por interesse Nacional para Diretor Geral de Assuntos Farmacêuticos no Ministério da Saúde e com outros, nomeadamente o Dr. Rui Ivo, fundámos o INFARMED.

Fui Bastonário dos Farmacêuticos, dois mandatos depois de passar á Reserva. Participei ativamente em diversas organizações Internacionais com a Agência Europeia do Medicamento(fundador), Organização Mundial de Saúde (OMS)e dez anos no Centro Europeu de Controlo das Doenças em Estocolmo (ECDC)

Os últimos anos tive intervenção ativa em Cooperativas Culturais como a Outro Modo (editora do Monde Diplomatique) e fui fundador com muitos outros da Fundação Para a Saúde SNS e presidente da Administração.

Tive uma experiência fugaz como independente, nas eleições Legislativas na frente Livre Tempo de Avançar.

Há uns meses fui contatado pessoalmente por João Maria Jonet em minha casa ,propondo me integrar a sua candidatura na Freguesia da Parede ( pouco mais de 40 000 habitantes)

Foi uma surpresa , tratava-se de um grupo muito heterogéneo de ex PSD; ex CDS; ex  PS e muitos independentes de vários campos ideológicos, como era o meu caso.Grupo com grande valor intelectual e muitos com destacada carreira profissional sem intervenção política.

A minha vontade de serviço público sempre marcou a minha carreira.

O que se passava em Cascais nos últimos anos chocava-me. A câmara rica ( 5ª em habitantes a nível nacional) era governada sem ter em conta os interesses dos seus habitantes (vivo na Parede há 50 anos). Com visões megalómanas e irrealistas para o Concelho, esbanjando o dinheiro dos contribuintes . Licenciamentos para construção aberrantes e de duvidosa legalidade , uma relação pouco salutar com as diversas instituições culturais e desportivas. Uma pressão constante para apoio em troca de suporte político. Visões aberrantes e de elevado risco ambiental e de segurança para os   habitantes, como o aeroporto de Tires, a Quinta dos Ingleses em Carcavelos ou a retoma da fórmula um no Estoril.

Uma visão de uma pequena burguesia deslumbrada, inculta, manipulada por interesses imobiliários e outros. Um “show off ” permanente, gastando milhões de Euros em propaganda em cartazes e iniciativas como conferências sem qualquer interesse para os habitantes. Como chegaram a dizer,queriam transformar Cascais num “Mónaco” Ibérico.

 Como resultado ,uma construção para estrangeiros de alto custo, pouquíssima habitação a custos acessíveis, um tráfego automóvel caótico,  uma mobilidade entre freguesias insuficiente e acessos a Oeiras e Lisboa cada vez mais difíceis.

 

O futuro dos habitantes que cá residem e dos sues descendentes  está em causa com esta política autoritária de dezenas de anos.

Por isso aderi ao movimento independente “Jonet Cascais para Viver” .

Em artigo de Adriana Castro publicado no Público de 29 de Agosto afirmava-se que “em quase um terço dos concelhos em Portugal há pelo menos uma candidatura autárquica independente á câmara “e que naquela data” e “99 grupos de cidadãos eleitores que apresentaram listas para as câmaras municipais, distribuídos por 89 concelhos”. Hoje sabemos que este número foi mais elevado e que representa um significativo aumento em relação a 2021.

Considero indispensável, num regime democrático, a atuação dos partidos políticos que refletem as diversas posições ideológicas e visões diferentes da sociedade. Não acredito nos vendedores de promessas irrealizáveis, que afirmam que hoje não há ideologias diferentes. Há e haverá sempre como provam milénios de história da humanidade.

Considero também que as eleições autárquicas têm características que as distinguem das outras eleições. (presidenciais e legislativas)

Aliás a instauração do poder autárquico, o Serviço Nacional de Saúde e Sistema Educativo, com todos os problemas existentes atualmente, marcam a instauração de regime democrático em 1974 , com o acesso á saúde que era só para ricos, aumento espetacular do acesso ao ensino, em todos os níveis e a delegação de poderes no poder local, anteriormente não eleito e corrente de transmissão do poder central autoritário. Qualquer das afirmações pode ser comprovada através da consulta pública dos dados do Instituto Nacional de Estatística (INE https://www.ine.pt )e da PORDATA.(  www.pordata.pt ).Ver artigo que publiquei no jornal público “ 50 anos de Liberdade memória e futuros desafios” acessível neste Blog.

Um aspeto relevante é o sucesso de listas independentes nos últimos anos, como estas eleições comprovam.

O compadrio partidário instalado em muitas autarquias, a cedência a pressões de grandes grupos financeiros, nomeadamente do imobiliário, com numerosas investigações judiciais em curso e muitas condenações de autarcas de diversos partidos, são sinais que algo vai mal no nosso poder autárquico.

As listas de cidadãos, muitas delas politicamente heterógenas, com muitos independentes ou ex-militantes de partidos, exigem processos mais abertos e transparentes nas formas de organização e elaboração dos programas.

Fogem á matriz dirigista da maioria dos partidos que também contaminam a política autárquica, que devia ser de proximidade e para resolver os problemas concretos do dia a dia dos seus habitantes.

Num regime democrático é discutível que durante a campanha eleitoral os órgãos de Comunicação só convidem os partidos já instalados e não convidem grupos de independentes que tiveram de recolher 4 000 assinaturas no concelho, para se candidatarem, Mais do que os votos de muitos dos partidos convidados para os debates. Para formar um Partido são necessárias 7 500 assinaturas a nível nacional.

A democracia não pode ser estática, como provam resultados destas últimas eleições, em que em pelo menos 18 municípios ganharam   listas independentes.

Noutros como aconteceu em Cascais, um dos maiores municípios do país, uma lista independente ficou em segundo lugar e retirou a maioria absoluta a uma coligação com mais de 20 anos de poder.

Cascais passou a ter uma oposição que defende os interesses dos seus habitantes como temos provado no Executivo Municipal, na Assembleia Municipal e diferentes Assembleias de Freguesia.

Temos feito propostas construtivas algumas aprovadas contra a minoria do PSD/CDS.

 A autocracia dominante está posta á prova. Como se viu nalgumas Assembleias de Freguesia os partidos de oposição associaram-se e aprovaram várias moções . O orçamento passou “por um fio” , dada a falta de democraticidade demonstrada e falta de respeito pelos legais direitos da oposição, nomeadamente no processo de discussão do orçamento.

Como se dizia nos meus tempos de dirigente estudantil é  preciso “Ousar para Vencer”

 

 

 

José Aranda da Silva

Dezembro 2025

 

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